sábado, 18 de fevereiro de 2012

Há espaço para CQC e Pânico na Band?

Por Fernando Oliveira

A notícia de que o “Pânico na TV” deixou a Rede TV! e está prestes a fechar contrato com a Band pegou a todos de surpresa e tomou a internet de assalto. O programa deve estrear em março e dividirá o estúdio com o “Ganha Quem Fica”, game show que será comandado por Datena. Numa emissora que nos últimos anos conseguiu emplacar produtos inovadores e bem-sucedidos (cada um a sua maneira, ressalve-se) como “A Liga” e “Mulheres Ricas”, é compreensível que haja espaço para uma atração como a comandada por Emília Surita. A não ser por um porém: o canal já conta com o “CQC” em sua grade de programação, um formato que lembra o “Pânico” em alguns pontos. É inevitável, portanto, que surja um questionamento: afinal, há espaço para dois humorísticos na Band?

Tão logo foi lançado, o “CQC” despertou desconfiança de parte do público. Muitos acharam tratar-se de um clone do humorístico que conta com Sabrina Sato no elenco. Foi preciso tempo para mostrar que, embora, em alguns quadros repórteres das duas produções fizessem plantão em portas de festas com famosos, a atração da Band tinha também um cunho jornalístico e social com quadros como o “Proteste Já” e as entrevistas com políticos em Brasília. Ainda que houvesse aproximação entre algumas pautas, a concorrência entre as emissoras servia como justificativa.

Agora no mesmo canal, é natural que haja uma readequação entre o material que será exibido nos dois humorísticos. Mas nos últimos tempos isso já parecia acontecer de maneira espontânea. Enquanto o “CQC” se mantém, digamos, em cima do salto, o “Pânico” não tem medo da galhofa. Investe em mulheres seminuas no palco ou deslizando num escorregador segurando um ganso, transforma seus repórteres em personagens e mais importante: dá mais audiência. Enquanto o programa de Marcelo Tas costuma marcar cinco ou seis pontos em seus melhores dias, o de Emílio Surita bate na casa dos 10. O que faz a coluna trazer à tona mais um questionamento: como a Rede TV! deixou escapar sua atração de maior audiência? Um erro dos grandes

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A bilheteira mística

Por: Luis Antônio Giron

Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV

Maura tem 26 anos e gastou tempo demais pensando no que fazer da vida. Namorou e brigou. Queria sair da casa dos pais na Vila Clarice e não conseguiu. Começou muitos cursos e os trancou. Imaginou projetos que não foram adiante até que abandonou seus ideais na ilusão de não sofrer. Dispersou o seu talento na indecisão.

De dúvida em dúvida, há dois anos foi aprovada em um concurso como funcionária do metrô, e se rendeu à necessidade de trabalhar. No primeiro dia, já a jogaram no guichê de vendas de bilhetes. Tremeu cada minuto das oito horas do primeiro expediente.

Voltou para casa tremendo como o piso da estação. Quase não conseguiu dormir. “Não posso aguentar”, pensou enquanto virava de um a a outro lado na cama. A resolução lhe deu tanto alívio que sonhou até que o despertador a chamasse às 6 da manhã. A mãe avisou-a de que tinha de pegar no serviço dali a uma hora. “Não vou”, anunciou, a cabeça debaixo do travesseiro. A mãe insistiu, trouxe-lhe café com pão e manteiga. Meio a contragosto, prometeu tentar uma última vez. Chegou atrasada porque errou o endereço.

Aos poucos, acostumou-se à rotina – e ao salário baixo. Progrediu, não na carreira, mas por dentro. Às vezes ela pensa que sofreu uma involução interior. Seu sorriso pode ser visto no guichê ou diante das catracas na estação Barra Funda. Logo ela, que sempre se extraviou no tempo e no espaço, tomou gosto de orientar os passageiros. Voltou até ao curso de Inglês, para lidar com os estrangeiros, que lhe enchem de perguntas, e não só sobre itinerários: querem dicas de passeios e sugestões de roteiro cultural.

Mas o que deixou Maura surpresa foi o comportamento dos passageiros. Jamais pensou que as pessoas fossem tão carentes. Passou a notar que as filas diferenciam umas das outras, e cada uma das dezenas de pessoas que compõe as filas tem personalidade própria. Estranhou que em geral elas não compram bilhetes múltiplos. Querem uma passagem de cada vez, talvez para bater papo ou lhe dar bom-dia. 

Fila é área de lazer, concluiu. Uns confessam segredos, outros querem opiniões sobre quaisquer assuntos, pechincham, levam presentes e santinhos. Há quem se aconselhe sobre teorias filosóficas. Um sujeito aparece por lá todos os dias. Espera horas só para, quando chega a sua vez, olhar no fundo do olho de Maura – se é que seu olho tem fundo, pensa, pois não passa de um olho negro raso e úmido. Seria hipnotismo ou xaveco? Outra tarde uma senhora pediu que previsse o seu futuro, sem ligar para quem vinha atrás. Eu mesmo gosto de passar pela estação só para praticar meu inglês com ela. Maura acha graça:. “Neste trabalho, descobri que as pessoas se sentem seguras na fila. E que são muito mais perdidas do que eu!” Enfim, encontrou sua vocação: guru.