segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vamos desejar os melhores votos para a Tunísia, até por nós

Por: Caio Blinder - Colunista da Veja

Para os histéricos com um discurso erva daninha sobre esta “primavera árabe” e para os eternamente floridos, aqui vai uma mensagem de alguém que devemos cultivar. O nome dele é Salman Rushdie, o escritor que sabe dos perigos do fundamentalismo islâmico. Afinal, ele foi alvo de uma fatwa, mais especificamente, de uma sentença de execução ordenada por aquela flor de pessoa que era o aiatolá Khomeini. Rushdie está vivo e é vivo para falar coisa com coisa sobre as eleições deste último domingo na Tunisia para uma assembléia constituinte.

A mensagem via Twitter, que eu vou traduzir de forma liberal, é a seguinte: dia de eleição, primeira eleição livre depois da “primavera árabe”. Os islamistas vão ganhar? Se isto acontecer, eles serão moderados como prometeram? Grande momento.

Aí, perguntado por um seguidor no Twitter se ele continuaria a dar pancada no Nahda se o partido islâmico “moderado”, como se projeta, tiver uma sólida vitória, Rushdie responde: depende se o partido se tornar opressor. Muitos regimes opressores foram levados ao poder pelo voto. Vamos ver e esperar.

Eu vou esperar com Rushdie, naquela mescla de esperança e apreensão. Ambiguidade é o sentimento adequado quando se trata destes partidos “moderados” islâmicos, com mensagens dúbias, com um discurso para a imprensa internacional e outro para a base, que também esperou um tempão e agora quer a sua vez. Já escrevi um texto na sexta-feira sobre a Tunísia. O pequeno país na África do Norte merece um segundo na sequência, enquanto aguardamos os resultados desta eleição histórica, que podem sair nesta segunda-feira ou na terça.

A promessa de Rachid Ghannouchi, o líder do Nahda, é uma composição com outros partidos, inclusive seculares, como única forma de governar o país. Este veterano político que passou mais de 20 anos no exílio (não em um paraíso islâmico, mas na Grã-Bretanha) disse aos jornalistas que sua meta “é estabelecer fundações de um sistema democrático, sólido, sustentável e irreversível na Tunísia”. Alguém vota contra? Vamos torcer contra o sucesso do casamento entre democracia e islamismo para provar que a região é um caso perdido? Eu não, embora não tenha gostado do discurso da “libertação” (que não é sinônimo de democracia) feito em Bengazi no domingo pelo líder do Conselho Nacional de Transição, Mustafa Abdul Jalil, sinalizando que a lei islâmica será a base na Líbia pós-Kadafi.

Apenas um pouquinho de contextualização: políticos veteranos como Ghannouchi, assim como os companheiros da Irmandade Muçulmana no Egito, onde haverá eleições no final de novembro, sabem que precisam ir devagar com o andor. Ghannouchi já perdeu quando os islamistas se saíram bem em um ensaio de eleição na Tunísia em 1989. Acabou no exílio. Na mesma época, o Exército na Argélia resolveu intervir quando um partido islâmico venceu eleições. O resultado foi uma década de sangrenta guerra civil. Para Ghannouchi, interessa ganhar, mas não ganhar de muito. E ele vai ganhar com o appeal da mensagem que mistura o caminho do islamismo com a promessa de justiça social. Mais do que promessa, partidos como Nahda são craques no assistencialismo e na redenção dos pobres.

E partidos como o dele ganham numa fase inicial. Estão mais organizados e aprenderam a sobreviver na luta contra a ditadura. Quem sabe, inclusive a ambiguidade seja genuina. Políticos como Ghannouchi podem realmente estar divididos entre a necessidade de assegurar o respeito às liberdades civis, como deseja o mundo civilizado, e a promessa de uma lei islâmica mais rigorosa, como deseja a base. Ademais, é preciso distinguir quem é quem no espectro político. Na “primavera árabe”, Nahda e Irmandade Muçulmana emergem no centro, entre os ultraconservadores salafistas (que pregam uma interpretação literal do Corão) e os liberais. Por contingência e posição no espectro, alguém como Ghannouchi pode acabar atuando de forma pragmática. Como disse o mestre Rushdie, é preciso ver e esperar.

De qualquer forma, Ghannouchi e os “moderados” islâmicos não têm como monopolizar na assembléia constituinte. Esta é uma realidade política da Tunísia e será assim no Egito, um país obviamente muito mais importante. A realidade é uma oportunidade para grupos não islâmicos montarem uma base mais sólida de apoio, mesmo que numa fase inicial o desempenho eleitoral seja pífio.

Muitos vão dizer que está tudo escrito, não precisamos esperar, como o escritor Rushdie. O que querem afinal? Voltar na história? Reler o livro de trás para frente? Isto outros já fazem.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Um toque garante sua vida

Por: Terezinha Prataviera

Terezinha é vereadora na Cidade de Hortolândia (interior de São Paulo) e está em seu primeiro mandato, um de seus carros chefes de governo é a luta em defesa do direito e da saúde da Mulher.

Email: vereadora.terezinha@yahoo.com.br

Abordarei um assunto que, com certeza, é do interesse de todas nós mulheres “o câncer de mama” (chamado popularmente de câncer do seio) é o tipo de câncer mais frequente na mulher brasileira, superando o do colo do útero. Apesar de ser um tumor maligno, é uma doença curável se descoberta a tempo, o que nem sempre é possível, pois o medo do diagnóstico é muito grande, levando algumas mulheres a perder um tempo precioso. Se a detecção for precoce, em que o câncer se resume a um nódulo único na mama, a taxa de cura chega a 95%. E nesse estágio, provavelmente nem haverá necessidade de extrair toda a mama.

Sabe-se hoje que os hábitos da vida moderna (má alimentação, estresse, sedentarismo, tabagismo) e a valorização da carreira profissional, que leva a mulher a adiar ou até a abrir mão da maternidade, contribuem para o aumento da incidência da doença.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama é o segundo tipo mais comum da doença no mundo e o mais frequente entre as mulheres, respondendo por 22% dos casos. O número anual de ocorrências no país é estimado em cerca de 49 mil e, embora menos comum, homens também podem ser atingidos.

Ainda segundo o INCA, as taxas de mortalidade por câncer de mama no Brasil continuam elevadas. Em 2008, ano do último levantamento feito no país, foram registradas 11.860 mortes em decorrência da doença. Das vítimas, 11.735 eram mulheres e 125 homens. Na população mundial, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a sobrevida média após cinco anos é de 61%. Desta forma é lançado nesta terça-feira nacionalmente o “ Outubro Rosa”, uma campanha que tem como objetivo alertar sobre a importância de prevenção do câncer de mama.

Cada uma de nós tem um grande papel a desempenhar e, para isso precisamos estar com muita saúde e disposição. Sendo assim, que tal “Um Toque”? Ou seja, dedicarmos um tempinho para um auto-exame de mama.

Para realizar o auto-exame é necessário que uma semana após a menstruação, deitada, toque em cada uma das mamas como se estivesse tocando as teclas de um piano, de fora para dentro, de todos os lados. Se encontrar algum nódulo, procure um ginecologista o mais rápido possível. A presença de um nódulo não significa que você esteja com câncer, mas vale a pena investigar melhor para afastar essa hipótese. E para os homens que estão lendo este artigo,vocês também devem se prevenir e podem ajudar no diagnóstico precoce do câncer de mama de suas companheiras, já que muitas pacientes foram “alertadas” pelo marido!
Não esqueça: Anote em sua agenda, ou em qualquer outro lugar: Uma semana depois da menstruação, o toque do auto-exame de mama garante sua vida!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As vitórias contra o câncer infantil

Para melhorar a saúde, não basta reclamar do governo. O exemplo da ONG que cura 70% das crianças com câncer que batem à sua porta.

Por: Cristiane Segatto

A presidente Dilma Rouseff afirmou nesta semana que a saúde enfrenta um sério problema de gestão. Você já ouviu isso antes, não é? De outros governantes, de gente de qualquer partido, de candidatos e de eleitos. A história é sempre a mesma: antes da eleição, reina o discurso de salvador da pátria. Depois da eleição vem a conversa realista: “Vejam bem, a saúde exige um choque de gestão, precisamos criar um novo imposto para financiá-la, a coisa é complicada, estamos avançando etc”.

Enquanto isso, a saúde continua sendo a maior preocupação dos brasileiros. Esse foi o espírito captado por uma pesquisa encomendada ao Instituto Ibope pelo Movimento Todos pela Educação alguns meses antes da eleição de Dilma. Para 63% dos entrevistados, a saúde deveria ser a prioridade número 1 do próximo presidente.

Deveria ser, mas não será. Por várias razões e interesses. Segundo o Banco Mundial, o Brasil gasta em saúde cerca de 8% do PIB. A Argentina gasta 10%. O Chile (6,2%) e o México (5,9%) gastam menos, mas têm indicadores de saúde melhores que o Brasil. Gastam menos dinheiro, mas gastam melhor. São bons de gestão.

É preciso exigir que o governo gaste mais e melhor em saúde. Ao mesmo tempo, é preciso entender que essa tarefa não é exclusiva do governo. Há muita coisa que a sociedade organizada pode fazer. Não basta só reclamar. É preciso agir como tantos espíritos inquietos que conseguem melhorar a qualidade de vida de comunidades inteiras e fazer história. O segredo deles é o inconformismo de resultados.

É o caso, por exemplo, do oncologista Sérgio Petrilli, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em 1988, ele visitou nos Estados Unidos o Hospital St. Judes, na cidade de Memphis. Ficou pensando por que razões aquele modelo não poderia dar certo também no Brasil. Descobriu que poderia e que sonhar – com os pés no chão – não faz mal à ninguém.

Foi assim que surgiu o GRAACC, o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, a ONG criada por ele em 1991. Em 20 anos, a experiência se provou eficaz. É um caso de sucesso baseado em três pilares: boa gestão, excelência média e científica e voluntariado organizado. Poderia ser reproduzido em qualquer lugar do Brasil. Basta querer.

“Não podemos aceitar que as crianças morram de câncer só porque são brasileiras”, diz Petrilli. Em vez de só reclamar do governo, ele teve a iniciativa de unir a universidade, os empresários e os voluntários na tarefa de preservar a vida.

Nas últimas décadas, o mundo conquistou muitas vitórias no combate ao câncer infantil. Em 1970, cerca de 75% das crianças com leucemia morriam nos Estados Unidos. O insucesso era a regra mesmo entre as famílias com condições financeiras de buscar o melhor tratamento possível. Hoje, 73% sobrevivem.

O câncer, a principal causa de morte por doença na população entre 5 e 18 anos, é um evento raro. Corresponde a menos de 3% de todos os casos da doença registrados no Brasil. A cada ano, surgem cerca de 10 mil casos novos.

É um câncer cheio de peculiaridades. Sob a lente do microscópio, os tumores infantis têm a aparência de tecidos fetais. Um tumor de rim, por exemplo, é composto de células embrionárias de rim. Antes que elas tivessem tido a chance de se desenvolver e se transformar numa célula renal com uma função específica, viraram tumor.
  

Isso explica por que bebês e crianças tão pequenas podem ter câncer antes que o estilo de vida inadequado tenha tido tempo de atuar sobre eles e desencadear a doença. A hipótese é que o desarranjo celular que leva ao câncer tenha sido provocado por substâncias químicas com as quais a mãe teve contato durante a gravidez.

Várias linhas de pesquisa buscam revelar quais são essas substâncias. Há muitos suspeitos – entre eles até as pastilhas usadas em repelentes elétricos de mosquito – mas nenhuma condenação. Seja qual for a causa da mutação que origina o tumor, ele vai crescendo silenciosamente durante a gestação e os primeiros anos de vida, até surgirem os sintomas.

A compreensão de que os tumores infantis são muito diferentes dos adultos contribuiu para as vitórias recentes contra a doença. Os anos 90 trouxeram descobertas genéticas que foram rapidamente incorporadas ao dia-a-dia dos consultórios.

No Brasil nem sempre é assim. Falta diagnóstico precoce e tratamento adequado. É aí que a criança sofre o ônus de ser brasileira. É contra essa regra que Petrilli decidiu se rebelar. No GRAACC, cerca de 70% dos pacientes são curados.

Os índices de cura poderiam ser ainda mais elevados se as crianças chegassem em fases mais precoces da doença. “Cerca de 30% dos pacientes com tumores ósseos chegam com metástase nos pulmões. Na Alemanha, esse índice é de 10%”, diz Petrilli.

Isso é sinal de que falta acesso ao sistema de saúde e de que falta informação aos médicos que prestam o primeiro atendimento. Poucos desconfiam de câncer. Para conhecer os principais sinais, acesse o site do GRAACC. https://www.graacc.org.br/o-cancer-infantil/sinais-e-sintomas.aspx

No ano passado, 2,5 mil crianças e adolescentes foram atendidos na instituição. Cerca de 90% eram pacientes do SUS. Felizmente, o GRAACC não pára de crescer. A casinha acanhada de 1991 se transformou, em 1998, num hospital completo (o Instituto de Oncologia Pediátrica).

Em meados de 2012, novas instalações estarão concluídas num terreno doado pela prefeitura de São Paulo. O hospital ganhará mais 4,2 mil m². Além do atendimento que já é feito hoje, a instituição contará com um aparelho de radioterapia dos mais modernos. Os planos de expansão prevêem que até 2015 o GRAACC ocupe 32 mil m².“Seremos um dos melhores centros de alta complexidade na América Latina”, diz Petrilli.

Como conseguiram? O GRAACC tem uma enorme área de captação de recursos. Várias empresas doam à instituição parte do Imposto de Renda devido. Inúmeras campanhas criativas fazem crescer as doações da sociedade. A parceria com o Mc Donald’s é só uma delas. O evento Mc Dia Feliz rendeu em 1993 o equivalente a R$ 100 mil reais. Em 2011, foram R$ 4,2 milhões.

As decisões na instuição são tomadas por um colegiado. Participam os empresários responsáveis pela gestão, os médicos, os voluntários. “Médicos são coorporativistas e empresários são mandões”, diz Petrilli. “Fui aprender a fazer planejamento estratégico, entender o que é core business e outras coisas”. Por outro lado, os empresários também aprenderam quais são as necessidades dos médicos, dos cientistas e dos voluntários. É uma aliança que deu certo.

“Nosso grande desafio é tratar todo paciente com o máximo de qualidade. Tratá-lo como se fosse um paciente particular. A questão aqui é o resgate da cidadania’, diz Petrilli.

As famílias atendidas no GRAACC reconhecem isso. A inspetora de qualidade Rozeli Aparecida Muniz sai de Carapicuíba, na Grande São Paulo, todos os dias às seis da manhã. Depois de enfrentar uma hora e meia de congestionamento, finalmente chega à instituição com a filha Ana Carolina.

A menina de 8 anos sofre de leucemia. Antes de chegar ao GRAACC, a família passou pelo roteiro clássico de desatenção à saúde tão comum no Brasil: diagnósticos errados, falta de acesso a exames e internação. Agora isso é passado. “Para mim é Deus no céu e o GRAACC na Terra”, diz Rozeli. “A gente não se sente no hospital. É um lugar que nos dá força”.

Ana Carolina adormece enquanto recebe a medicação na Quimioteca, um espaço colorido, cheio de livros e brinquedos, cuja intenção é reduzir o impacto do tratamento. Outras crianças brincam ou conversam.

Pela ótica de quem conhece a realidade da saúde pública brasileira, os pacientes do GRAACC parecem privilegiados. Até quando vamos aceitar que o tratamento correto, eficaz, gentil e respeitoso seja um direito de poucos?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Adultério Feliz

Por Betty Millan - Colunista da Veja

Tenho 40 anos, sou casada há vinte e tenho uma adolescente linda. Mas mesmo assim vivo, há três anos, uma história extraconjugal. Uma história de amor linda com um ex-amigo também casado e com filhos. Tudo começou como uma brincadeira, um beijo roubado em uma festa por ele. E nós nem tínhamos bebido. A situação foi tomando um rumo tal que perdemos o controle. Passamos a nos encontrar esporadicamente porque ele mora em outra cidade. Mas nossos encontros são maravilhosos, intensos e cheios de carinho. Nós nos falamos todos os dias, é uma relação incrível.

Sei que estamos errados. Não somos corretos com nossos cônjuges. No entanto, tentamos nos afastar durante três meses e não deu certo. Sinceramente, tenho medo de me separar dele e o casamento acabar (o meu e o dele), pois é essa história de amor às avessas que nos mantém.

Se seu marido não se dá conta de que você tem um amante, é porque o triângulo convém a ele. Do contrário, ele descobriria a verdade. O mesmo pode ser dito da esposa de seu amante. A situação atual é de equilíbrio para as pessoas envolvidas, e você tem razão de temer sua dissolução. Poderia resultar numa grande infelicidade.

Agora, a condição do equilíbrio é a clandestinidade, que precisa ser mantida. Enquanto viver a vida escondido não for um estorvo, não há por que mudar nada. Quanto à incorreção, pergunto: você acaso seria mais correta se ficasse em casa se lamentando e se deprimindo com a falta do que só o amante lhe dá? Não estaria se prejudicando, além de prejudicar indiretamente seu marido e sua filha adolescente?

Manter o pacto de fidelidade do casamento não é dado a todos e, como diz Octavio Paz, é raro. Porque o desejo muda de objeto. Não podemos nos culpar ou culpar os outros por isso. Daí o filme As You Like it, de Woody Allen, um cineasta particularmente bem-humorado. Para ele, só a felicidade importa. Sugere de diferentes maneiras, no filme, que façamos da nossa vida o necessário para sermos felizes. Recomendo que você assista a As You Like it e reflita a partir dele sobre você mesma.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

"Educação: Reprovada" -

Por Lya Luft

Lya Luft é Colunista da Revista Veja

Há quem diga que sou otimista demais. Há quem diga que sou pessimista. Talvez eu tente apenas ser uma pessoa observadora habitante deste planeta, deste país. Uma colunista com temas repetidos, ah, sim, os que me impactam mais, os que me preocupam mais, às vezes os que me encantam particularmente. Uma das grandes preocupações de qualquer ser pensante por aqui é a educação. Fala-se muito, grita-se muito, escreve-se, haja teorias e reclamações. Ação? Muito pouca, que eu perceba. Os males foram-se acumulando de tal jeito que é difícil reorganizar o caos.

Há coisa de trinta anos, eu ainda professora universitária, recebíamos as primeiras levas de alunos saídos de escolas enfraquecidas pelas providências negativas: tiraram um ano de estudo da meninada, tiraram latim, tiraram francês, foram tirando a seriedade, o trabalho: era a moda do “aprender brincando”. Nada de esforço, punição nem pensar, portanto recompensas perderam o sentido. Contaram-me recentemente que em muitas escolas não se deve mais falar em “reprovação, reprovado”, pois isso pode traumatizar o aluno, marcá-lo desfavoravelmente. Então, por que estudar, por que lutar, por que tentar?

De todos os modos facilitamos a vida dos estudantes, deixando-os cada vez mais despreparados para a vida e o mercado de trabalho. Empresas reclamam da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, médicos e advogados quase não sabem escrever, alunos de universidades têm problemas para articular o pensamento, para argumentar, para escrever o que pensam. São, de certa forma, analfabetos. Aliás, o analfabetismo devasta este país. Não é alfabetizado quem sabe assinar o nome, mas quem o sabe assinar embaixo de um texto que leu e entendeu. Portanto, a porcentagem de alfabetizados é incrivelmente baixa.

Agora sai na imprensa um relatório alarmante. Metade das crianças brasileiras na terceira série do elementar não sabe ler nem escrever. Não entende para o que serve a pontuação num texto. Não sabe ler horas e minutos num relógio, não sabe que centímetro é uma medida de comprimento. Quase a metade dos mais adiantados escreve mal, lê mal, quase 60% têm dificuldades graves com números. Grande contingente de jovens chega às universidades sem saber redigir um texto simples, pois não sabem pensar, muito menos expressar-se por escrito. Parafraseando um especialista, estamos produzindo estudantes analfabetos.

Naturalmente, a boa ou razoável escolarização é muito maior em escolas particulares: professores menos mal pagos, instalações melhores, algum livro na biblioteca, crianças mais bem alimentadas e saudáveis – pois o estado não cumpre o seu papel de garantir a todo cidadão (especialmente a criança) a necessária condição de saúde, moradia e alimentação.

Faxinar a miséria, louvável desejo da nossa presidenta, é essencial para nossa dignidade. Faxinar a ignorância – que é uma outra forma de miséria – exigiria que nos orçamentos da União e dos estados a educação, como a saúde, tivesse uma posição privilegiada. Não há dinheiro, dizem. Mas políticos aumentam seus salários de maneira vergonhosa, a coisa pública gasta nem se sabe direito onde, enquanto preparamos gerações de ignorantes, criados sem limites, nada lhes é exigido, devem aprender brincando. Não lhes impuseram a mais elementar disciplina, como se não soubéssemos que escola, família, a vida sobretudo, se constroem em parte de erro e acerto, e esforço. Mas, se não podemos reprovar os alunos, se não temos mesas e cadeiras confortáveis e teto sólido sobre nossa cabeça nas salas de aula, como exigir aplicação, esforço, disciplina e limites, para o natural crescimento de cada um?

Cansei de falas grandiloquentes sobre educação, enquanto não se faz quase nada. Falar já gastou, já cansou, já desiludiu, já perdeu a graça. Precisamos de atos e fatos, orçamentos em que educação e saúde (para poder ir a escola, prestar atenção, estudar, render e crescer) tenham um peso considerável: fora isso, não haverá solução. A educação brasileira continuará, como agora, escandalosamente reprovada.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Crônica do Amor

Por Arnaldo Jabor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A sibutramina e o teste da tolerância

Quando o assunto é obesidade, a sociedade se divide entre o preconceito e o politicamente correto.

Por Cristiane Segatto - Revista Época

Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo. Para falar com ela, o e-mail de contato é: cristianes@edglobo.com.br

Vamos começar com um jogo. Responda às questões abaixo com “falso” ou “verdadeiro”. Não vale tentar parecer politicamente correto. Responda com o máximo de sinceridade, de acordo com a sua opinião. Se preferir, faça o teste sozinho, em silêncio. O segredo é não temer o julgamento alheio.

1) Obesos são preguiçosos

2) Algumas pessoas estão fadadas a ser gordas

3) Se estivesse selecionando um funcionário e entrevistasse dois candidatos com habilidades e currículo semelhantes, contrataria o mais magro

4) Só é gordo quem quer

5) Ninguém precisa de remédio para emagrecer

6) Prefiro ter uma filha anoréxica a ter uma filha gorda

7) Gordos são feios, mas têm bom humor

Quanto mais vezes você concordar com as frases acima, mais contaminado pelo preconceito contra os obesos você deve estar. Uma versão mais elaborada desse teste é parte de uma pesquisa realizada pela antropóloga Alexandra A. Brewis, da Universidade do Estado do Arizona, nos Estados Unidos. O trabalho foi publicado no periódico Current Anthropology.

Várias pesquisas anteriores haviam demonstrado que o excesso de peso se tornou um estigma. Virou uma marca socialmente imputada aos obesos como prova de indolência - entre tantos outros preconceitos. O que Alexandra fez foi avaliar de que forma a visão pejorativa predominante na sociedade americana se espalhou globalmente. Inclusive em populações ou grupos que, historicamente, encaravam as curvas como um sinal de beleza e saúde.


Setecentas pessoas participaram da pesquisa em países da “anglosfera” (Estados Unidos, Inglaterra e Nova Zelândia), em nações da América Latina (México, Argentina e Paraguai) e em sociedades que tradicionalmente preferem corpos volumosos, como os nativos de Porto Rico e da Samoa americana (que fica na Polinésia).

Ela observou altos níveis de estigma em todas as sociedades estudadas. “Em pouco tempo, as percepções negativas sobre os obesos vão se tornar norma cultural mesmo nas comunidades em que as formas opulentas eram, até recentemente, vistas como atraentes”, afirma Alexandra.


O que estimula esse fenômeno? O fator óbvio, aquele que está na cabeça de todos nós, é o padrão de beleza magérrima cultuado pela mídia. Alexandra enxergou outro: as campanhas de saúde pública que apontam a obesidade como uma doença e, muitas vezes, criticam diretamente os indivíduos em vez dos fatores ambientais e sociais que levam ao ganho de peso.

“O excesso de mensagens negativas sobre saúde carregam com elas muitas mensagens morais negativas”, diz Alexandra. Segundo ela, expressões do tipo “a culpa é sua” ou “você pode mudar” são contraproducentes.

É um ponto que merece reflexão. Principalmente no momento em que as autoridades sanitárias debatem a proibição de inibidores de apetite. Desde fevereiro, a Anvisa discute se retira ou não do mercado a sibutramina (a principal escolha dos médicos que receitam drogas para tratar a obesidade) e outros três medicamentos: anfepramona, femproporex e mazindol.

A decisão era aguardada para quarta-feira, mas foi postergada mais uma vez. A tendência é a de que a agência mantenha a sibutramina no mercado, mas exija que o paciente e o médico declarem saber que o remédio aumenta o risco de problemas cardiovasculares. Provavelmente, os outros três remédios serão proibidos.

Para quem não acompanhou o que está por trás desse debate, aí vai um resumo: a sibutramina atua no cérebro e aumenta a sensação de saciedade. É um tratamento barato (R$ 20 por mês), mas incerto. Alguns pacientes não emagrecem nada. Outros podem perder mais de 20 quilos.

A justificativa da Anvisa a favor da proibição é um estudo de seis anos realizado pelo próprio laboratório Abbott, o fabricante do Reductil (a primeira marca de sibutramina a chegar ao mercado) com 10 mil pacientes, a pedido da Agência Europeia de Medicamentos (Emea). Foram incluídos apenas obesos acima de 55 anos, com diabetes e histórico de problemas cardiovasculares.

 
No grupo que recebeu placebo (comprimidos sem efeito), o índice de infarto, AVC ou outros problemas cardiovasculares foi de 10%. No grupo que tomou sibutramina, o índice foi de 11,6%. Ou seja: o risco aumentou 16%. Nenhuma morte foi registrada.


Embora o estudo tenha sido realizado com um grupo de alto risco, as autoridades europeias estenderam as conclusões para a população geral e proibiram a venda do remédio em janeiro de 2010.

A Abbott também foi pressionada pela agência americana FDA e decidiu retirar a droga dos Estados Unidos. O mesmo ocorreu no Brasil no final de 2010, mas a sibutramina continuou disponível na forma de produtos genéricos ou similares. Restaria nas farmácias apenas o orlistat, conhecido pela marca Xenical. Ele não atua no cérebro e tem um efeito emagrecedor menor.


Durante toda a discussão, várias afirmações preconceituosas ou descabidas vieram à tona. Coisas do tipo: qualquer um pode emagrecer sem remédios; há abuso de inibidores de apetite no Brasil; os endocrionologistas são contra a proibição dos remédios porque os consultórios deles vão ficar vazios.

Nenhuma dessas afirmações está baseada em fatos. Seria maravilhoso se todas as pessoas emagrecessem apenas com reeducação alimentar e atividade física. Essa é, sem dúvida, a opção mais saudável, barata e duradoura. Infelizmente, não funciona para todo mundo.

“No grupo de pacientes com grau de obesidade que varia de leve a mórbida, 70% não emagrecem sem remédio. Podem até emagrecer por um tempo, com exercícios ou dietas, mas vão recuperar o peso”, diz o endocrinologista Alfredo Halpern, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

É verdade que muita gente toma inibidores de apetite de forma indiscriminada, irresponsável e, muitas vezes, desnecessária. Mas os números demonstraram que não há excesso de consumo de sibutramina no Brasil.

“No ano passado, houve 1,9 milhão prescrições. Isso é suficiente para tratar apenas 1,7% dos 19 milhões de brasileiros obesos”, diz Ricardo Meirelles, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Em vez de proibir os emagrecedores, as autoridades sanitárias deveriam aumentar o controle sobre a prescrição. Se esses remédios baratos (hoje encontrados apenas na forma de genéricos e similares) saírem do mercado, os ricos terão a opção de se tratar com alguns antidepressivos, anticonvulsivantes e outros remédios que, como efeito colateral, podem provocar perda de peso.

E os pobres? Para variar, ficarão sem opção.

Antropólogos como a americana Alexandra podem não gostar, mas de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a obesidade é uma doença. Uma doença complexa, influenciada por razões sociais, econômicas, biológicas, emocionais e culturais. À medida que a pessoa sai do sobrepeso e caminha para a obesidade mórbida, a saúde fica cada vez mais comprometida.

A obesidade representa hoje um dos maiores desafios de saúde pública porque aumenta o risco de males como diabetes, infarto, AVC e câncer. Não é razoável imaginar que um obeso grave, com articulações comprometidas e joelhos sobrecarregados, possa sair correndo no parque se estiver motivado.

“É um tremendo preconceito achar que o obeso não emagrece porque não tem vergonha na cara”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Por outro lado, vitimizar os obesos, tratá-los como seres incapazes de governar sua vida, assumir suas fraquezas e mudar seu destino também me parece injusto e hipócrita.

Assim como os magros, os gordos não são santos. Têm defeitos, sucumbem a tentações, procrastinam. Não devem ser tratados como vítimas indefesas de seus genes, do ambiente, da cultura, da condição social. Têm livre arbítrio e capacidade de lutar contra uma situação física e emocional que coloca a vida em risco.

Preconceito em relação à obesidade, nas ruas ou nos gabinetes de Brasília, não ajuda. O discurso politicamente correto que vitimiza os gordos também não.