segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Somos pais e filhos adotivos

Por: Marcelo Tas - É jornalista e comunicador de TV. Tem três filhos: Luiza, 22 anos, Miguel, 10, e Clarice, 6. É âncora do “CQC” e autor do Blog do Tas. Aceita com gratidão críticas e sugestões sobre essa coluna no e-mail: crescer@marcelotas.com.br  

Tenho amigos de várias idades. Já fui testemunha da transformação de muitos deles de solteiros convictos em casados apaixonados e dedicados a seus parceiros e parceiras. Para a grande maioria dos casais que vi surgir, sempre observei com atenção e alegria o momento inevitável da vontade de ter filhos. Nessa hora, algo cada vez mais comum e triste acontece. O planejamento exigente e cuidadoso dos casais, baseados na ilusão costumeira de que eles é que vão escolher com precisão suíça a hora da chegada dos filhos, se transforma em frustração e ansiedade. O ciclo da vida é um eterno mistério. O tempo, esse velho senhor da razão, não para de colocar armadilhas e surpresas no caminho. O relógio biológico sugere que vivamos a vida como se cada batida do coração fosse a primeira. Mas a frase é dificílima de ser colocada em prática.

Queremos ter o controle de tudo. Quando, por alguma razão, os filhos não chegam, há um risco enorme de fadiga na estrutura do casamento. Nem todo casal deve ter filhos, claro. Mas é inegável que a experiência da paternidade e maternidade dá uma consistência especial ao casamento.

Talvez por conta das novas demandas profissionais, o casamento e os filhos são cada vez mais empurrados para um período mais tardio da vida. É doloroso ver casais gastarem preciosas economias e até recursos inexistentes em médicos e métodos de fertilidade tão incertos quanto desgastantes, materialmente e espiritualmente. O outro lado da moeda, compensador, é ver como a adoção passou a ser uma opção que ganha novo valor nos dias que correm. E como correm...

Emocionado, acompanhei o drama de um casal de amigos que, depois de um longo processo de debate, se decidiu por adotar uma criança. Descobriram, a duras penas, que a chegada do filho adotivo apresentava a mesma dificuldade, senão ainda maior, que a do frustrado processo biológico. A chegada do pequeno ser que iluminou a vida deles teve cenas de cinema. Com direito a mergulho na burocracia selvagem e viagens arriscadas a lugares remotos do país.

Apresentei esse mesmo casal, sugerindo-os como consultores, a um outro casal de amigos brasileiros que mora no exterior com o mesmo drama. Novamente, fui testemunha de cenas comoventes e inesquecíveis. O coração deles se abrindo ao constatar, numa visita ao Brasil, o quanto os filhos adotivos (na ocasião já eram dois!) haviam sido incorporados e amados como filhos pelo casal “consultor”. Apenas filhos, sem o adjetivo: adotivos.

Mais recentemente, um outro casal de amigos adotou uma garota com 7 anos! Pude testemunhar como, com o avançar da convivência, do afeto e das inevitáveis crises entre eles, cada um parece ter nascido para o outro. Tanto os “novos” pais pareciam ter recebido a encomenda perfeita para renovar o casamento deles quanto a linda garota, já grandinha e serelepe, ter nascido para encontrar, um dia, aqueles novos pais.
Quero ainda registrar e agradecer a história enviada pela leitora Patrícia Silva, de Jaguariúna (SP), que inspirou esta coluna. Depois de três anos, e muitas incertezas, na fila do Cadastro Nacional de Adotantes, Patrícia relata com coragem tocante a transformação da vida dela e de seu marido, Gil, com a chegada do pequeno Nicolas. Patrícia sugere que o assunto “adoção” seja abordado de forma mais simples e direta para injetar coragem nos outros casais que vivem o mesmo drama dela. Concordo 100% e digo mais: penso que todos os filhos, de uma forma ou de outra, adotam os seus pais e vice-versa. Somos todos pais e filhos adotivos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

FELIZ ANO NOVO!!!

REPÓRTER CIDADE: PLUGADO EM VOCÊ!!!!!!

Que este novo Ano que nasce seja repleto de Realizações, que cada Sonho seja uma Meta e que cada Meta seja abençoada por Deus e alcançada por todos nós.

Esse são os votos do REPÓRTER CIDADE

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Rebeliões, intimidades e desfechos imperfeitos

Aquilo que permanece em nós é o que tece nossos dias– e nem sempre é grandioso aos olhos do mundo. Lembranças íntimas, revoltas necessárias.

Por: Elaine Brum

Jornalista, escritora e  documentarista. Ganhou mais  de 40 prêmios nacionais e  internacionais de reportagem.  É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br.






Escrevo do meu não Natal. Neste ano, consegui fazer um acordo com a minha família de que o sentido era o do encontro e o do afeto – e para isso não precisava acontecer na data estabelecida nem pela religião, nem pelo mercado. Marcamos nosso Natal para 6 de janeiro, quando as estradas já se esvaziaram, algumas liquidações de verão começaram em lojas vazias, as passagens aéreas estão mais baratas e o espírito natalino, em geral tenso e agressivo pelo cansaço e pelas obrigações, já foi tarde.

Me escondi num lugar em que pude passar os dias observando a natureza e sua mistura de beleza e violência. Passei a maior parte do tempo seguindo a uma distância regulamentar um casal de bem-te-vis alimentando os filhotes em um ninho sempre ameaçado por um gato amarelo, um quero-quero aflito escoltando seu filho aleijado de uma perna enquanto patrulhava a área com passadas marciais, um formigão que repete sempre o mesmo trajeto diante de mim, manhã após amanhã, aparentemente sem sentido, mas com muita convicção, a quem apelidamos de “Sem Noção”. E há um pardal, o “Folga”, que come qualquer coisa, inclusive os enfeites da sala.

Tenho certeza de que, até o fim desta semana, Folga vai tentar comer algumas letras do meu computador. Então, não se surpreendam se na próxima coluna eu apresentar aqui uma língua saqueada de vogais e consoantes, digeridas no estômago desse pardal petulante entre pedaços de pão e sementes de melancia. O Folga nada entende de antropofagia nem conhece Oswald de Andrade e, neste exato momento, me olha com um interesse guloso. Acho que pensa se vale a pena dar uma bicadinha nos meus olhos ou é melhor provar outra freguesia. (“Seja esperto, Folga, e mantenha essas penas no corpo!”, digo a ele, que se faz de canarinho.)

Não foi um ano fácil, o que passou. Acho que para o mundo – e também para o nosso mundo bem aqui. Acabo de terminar um pequeno livro, escrito pela historiadora e psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco – “Lacan, a despeito de tudo e de todos” (Zahar). E duas frases se aplicam muito ao balanço inevitável que, mais do que o de um ano que passou, é de uma época que não passa. A primeira delas é: “Nossa época é dividida entre um desejo de fundamentalismo e uma busca ilimitada do gozo”. Voltarei a essa ideia numa próxima coluna. Ela vale não só para a vivência individual, mas também para a política.

A outra se encaixa em cada uma das muitas violências que testemunhamos no Brasil neste 2011 pródigo em barbáries: contra índios, extrativistas e quilombolas; contra homossexuais; contra moradores de rua; contra a Amazônia (onde hoje é travado o debate central sobre o país que seremos e, portanto, sobre o que e quem somos nós). Foi um ano assinalado pela violência contra todos os “outros” que nos ameaçam com sua diferença e por isso devem ser destruídos ou subjugados aos interesses mais imediatos e mesquinhos, antes que corramos o risco de conhecê-los e sermos transformados pela experiência sempre transtornadora do reconhecimento. A frase, que se refere “às relações características do individualismo do mundo democrático moderno”, é esta: “Destruir o outro no lugar de aceitar o conflito”.

Na política de Estado, é também isso que temos testemunhado. Os conflitos de ideias e de visões de mundo que nos levariam a um país mais rico, diverso e desejante, com mais de todos nós dentro de si, está sendo calado com o que há de mais abjeto no exercício do poder, com os instrumentos da Lei a serviço da injustiça, de uma suposta governabilidade e de velhos, velhíssimos interesses fisiológicos.

Temos sido atacados também, em todas as instâncias, com o cada vez mais nefasto discurso do bem, em que o Estado entra na nossa casa disposto a executar “o que é bom para nós” e, se não aceitamos, é porque ainda somos imaturos como filhos que não cresceram. Neste ano que vem, vou continuar fugindo dessa gente que diz, com o olhar fugidio dos fanáticos encastelados em cargos de confiança ou em lugares de poder: “É para o teu próprio bem...”.

Penso que cabe a nós manter o conflito vivo – o das ideias, sempre vale a pena deixar claro – e pegar à unha o desafio que assusta e fascina, que é o de construir um novo jeito de ser na política. E para isso contamos com os novos instrumentos de um mundo novidadeiro e mutante, como em raros momentos históricos, onde aquilo que ainda nos esmaga já começa a cheirar a podre – de novo. Ainda tateamos na invenção desse novo mundo, que só tem chance de ser melhor que este se conseguir acolher os conflitos e dialogar com eles – e não afogá-los em autoritarismo.

Em homenagem à nossa teimosia de seguir buscando a possibilidade em terra ensanguentada, reedito uma outra grande frase do ano que termina. Desta vez do escritor uruguaio Eduardo Galeano, diante das manifestações dos jovens na Espanha: “Este mundo de merda está grávido de outro!”. (Estes 11 minutos de lucidez e de esperança, que pode ser visto clicando aqui, é meu presente de Natal para vocês.)

Mas agora, depois de renovar a revolta necessária à manutenção da esperança, me volto para dentro de mim. E nos próximos parágrafos compartilho com vocês o que me faz sorrir, para além de todos os ganhos e perdas, porque me recuso a ser limitada por essa conta sem imaginação. Por mais que tentemos escapar dessas datas ritualísticas, elas nos fazem pensar no que vivemos, até porque boa parte de nós só tem tempo para si nesses feriados. Proponho aqui uma conta que não é a das metas grandiosas, mas a das descobertas pequenas, que, ao final, são o que nos mantém respirando no tecido asfixiante e por vezes sintético da vida cotidiana.

Por um simples impulso de compartilhar e de estimular uma reflexão que cada um possa fazer por seus próprios desejos e caminhos, me arrisco aqui ao prosaico e ao piegas, porque também sou feita dos dois, ainda bem. Como disse Galeano, nesse depoimento antológico: “Eu não quero ser uma cabeça que rola por aí. Sou uma pessoa. Sou cabeça, sexo, barriga, tudo. (...) Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. E, quando a razão se divorcia do coração, comece a tremer, porque este personagem pode levar ao fim da existência humana no planeta. Não, eu não creio nisso. Creio nessa fusão contraditória, difícil mas necessária, entre o que se sente e o que se pensa. (...) A mim me interessa (a sabedoria) que combina o cérebro com as tripas. Essa que combina tudo o que somos”.
A seguir, minha lista de pequenas epifanias de 2011:

1) Ao longo do ano, passo semanas sem datas e motivos com os meus pais na cidade em que eu nasci, no interior gaúcho. Meu pai tem 81 anos, minha mãe, 76. Nesta segunda, fazem 58 anos de casamento. Gosto de acompanhar a rotina sistemática deles, como um balé cada vez mais lento, ainda que a mãe corra pela casa com seus pés e joelhos problemáticos, contrariando, como é do seu feitio, todos os vaticínios médicos. Jantamos às 19h e então vem a melhor parte. Vamos para o quarto deles assistir ao JN e à novela das nove, ritual sagradíssimo na hierarquia dos dias dos meus pais. Eles sentam cada um em sua poltrona. Eu deito na cama deles. Tenho ali a consciência grandiosa de como sou privilegiada por, aos 45 anos, fingir que ainda sou menina, com meus pais velando o meu sono. E durmo muito antes de a novela começar. Depois, volto para a minha cama cambaleando, e a mulher retorna em mim. Mas alargada pela menina que espia como quem acabou de fazer arte, inventando uma infância quando já está perto de ser avó.

2) Em 2011, os bebês desembarcaram na minha vida pelas barrigas de amigas com hormônios em fúria. E também pelo desejo de um irmão cientista que até então tinha jurado que jamais botaria no mundo um “bípede desplumado”. Olhei com desconfiança redobrada para aquelas caras de velhinhos, só para descobrir que a natureza faz destas criaturas uns bichos insidiosos. Minha afilhada, Catarina, é tão fofurenta que temo a força da gravidade e quero botar um sutiã nas bochechas da guria. Não sei mesmo onde vão parar aquelas bochechas de buldogue. Como ela vai conseguir caminhar com aquelas bolotas puxando perigosamente para baixo, finjo preocupar-me? Mas, quando estou triste, é neste sutiã de bochechas que penso e de imediato ganho um sorriso de Mona Lisa.
Meu sobrinho, Rodrigo, fez o favor inestimável de contrariar todas as expectativas do seu pai, que leu com rigor os livros científicos existentes sobre o funcionamento do cérebro dos bebês e do desenvolvimento motor e blábláblá. Meu irmão do meio, que sempre mediou a vida pelo conhecimento apreendido nos livros, foi tomado de assalto por um humano que não seguia nenhum manual, mesmo que o compêndio tivesse vindo de Harvard. Para começar, em vez de desplumado, Rodrigo tem a cabeça coberta por uma plumagem ruiva com mechas brancas que ninguém sabe de onde veio, embora a avó materna jure que era igualzinha. E ainda não se tornou um bípede. Mas tem se esforçado. Muito. Quando estou triste, materializo diante de mim sua figura imponente (é um bebê enorme!), em pé, agarrado às grades do berço, com sua empáfia de guerreiro viking, segundos antes de cair de bunda no colchão. Neste efêmero instante em que se equilibra sobre as duas pernas, ele me diz, com seu olhar de máximo orgulho: “Olha como eu sou lindo e fico em pé. E ainda por cima tenho DOIS dentes!”. A vida sempre vale a pena depois dessa memória.

3) Meu irmão mais velho me levava para Passo Fundo com a minha mãe para eu pegar o avião para São Paulo quando, de repente, tivemos a conversa mais verdadeira possivelmente de nossa vida inteira. Ele viveu tempos duros, o meu irmão. Tempos que eu só acompanhei de longe. Fiquei ali, escutando no banco de trás do carro as palavras que vinham de um desejo de encontro – e não, como é na maioria das vezes, em nossa relação com o outro, um preenchimento superficial de espaço que ninguém quer preencher, mas sente que precisa, ou uma disputa de poder e de lugar. Foi um momento grandioso. Porque é sempre raro e grande encontrar alguém. Neste instante, a máquina do mundo se abre diante de nós. E não importa mais ser poeira em um universo que não compreendemos. Estamos ali, em nós mesmos, ainda que por um átimo de tempo. Enlaçados em uma história de redemunhos, mas conscientes de que a vida humana é assim, um possível impossível.

4) Desde que os bebês apareceram, descobri que os homens também ovulam. Meu marido nunca quis filhos. Mas apaixonou-se de tal maneira pelos filhos dos outros não como um pai, mas como um tio e um dindo disposto a solapar qualquer esforço de botar limites que os pais possam vir a ter, que passou a gastar a maior parte de seu tempo livre criando armadilhas para filhotes humanos. Num destes dias de ovulação ensandecida, embrenhou-se na 25 de Março, a rua mais muvuquenta e barata do comércio do centro de São Paulo, praticamente uma instituição, e voltou de lá com uma piscininha de plástico. Instalou- a bem no meio da sala. Em vez de água, colocou edredons e almofadas para que os bebês pudessem dormir e brincar. Mas, como somos apenas eu e ele que moramos lá, quem acaba na piscininha seca somos nós. E volta e meia é de dentro dela, preciso confessar antes que o ano acabe, que escrevo esta coluna. Toda feliz porque tenho ao meu lado um homem tão corajoso que pode se dar ao luxo de virar menino.
5) Estava no aeroporto de Congonhas esperando pela minha filha que chegaria para me visitar. Minha filha tem 29 anos e somos ligadas por um amor tão profundo que nunca sei o que fazer primeiro quando ela aparece: se a encho de feijão, se a boto no colo fingindo que ela tem 5 anos ou se tomamos um vinho conversando sobre nossas últimas descobertas existenciais. Toda faceira porque sei que ao longo dos dias faremos tudo isso e mais um pouco. Estava lá quando avistei de repente uma mulher linda. Ela caminhava como se fosse dona do seu mundo, imersa nele não com prepotência, mas com leveza. Quem cruzasse o caminho daquela mulher podia esperar dela uma força que vem da delicadeza. Seus cabelos loiros e longos esvoaçavam como se batidos por uma brisa inexistente, e a saia ondulava ao redor de suas pernas a cada passo. Como é linda, eu pensei. Então a mulher focou uns olhos que eu descobri azuis bem nos meio do castanho dos meus, sorriu pra mim e caminhou na minha direção. Era a minha filha.
Termino em momento épico. Alertada por um quero-quero esganiçado, acabo de salvar um ovo de bem-te-vi da bocarra de um calango. Segundos depois de me sentir heroica, percebi que tinha sido injusta com o lagarto, roubado de sua ceia natalina pela minha interferência em curso indevido. A vida é assim, um campo minado de contradições e desfechos imperfeitos.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

OS PELADÕES FAMOSOS

Por Walcyr Carrasco

Ontem eu comentei sobre o ator cujo nome começa com K, cujo vídeo fazendo “aquilo”foi postado na web.

Foi o suficiente para receber muito mais informações. Parece que há uma onda de pegar famosos no flagra e depois postar o video. É uma loucura. Todo mundo tem que ficar esperto com a internet. Afinal, deve ser chatissimo descobrir um video mostrando as intimidades. E que intimidades! Depois, como explicar para a namorada, mulher, filhos, mãe, pai?

Fazer sexo pela internet é um risco. Saber com certeza das intenções de quem está do outro lado, ninguém sabe.

O pior de tud é que um video postado na web fica rolando para sempre. Ainda mais de um famoso.

Bem, eu recebi os links dos videos dos atores Carlos Machado e André Segatti. E pasmem, do Ronaldinho Gaúcho. Não vou dar o endereço aqui. Só conto que estão sendo exibidos no site “mundomais”. É um site gay, mas isso não significa absolutamente que eles sejam gays . Só que os vídeos chegaram até o site e estão lá para quem quiser ver – com direito a detalhes, porque na hora H nenhum deles se segurou.

Eu tenho a impressão que foi iniciada uma temporada de caça aos peladões da internet. Cautela!

E fica meu conselho, válido para todo mundo. Mas principalmente para os famosos. Amor pela internet pode virar terror!

domingo, 30 de outubro de 2011

Algumas regras, muita leitura e um bom dicionário

Por: Adilson Alves - Colunista do Jornal Gazeta do Povo

Segunda-feira passada (17/10), depois de ter cumprido meu ritual matutino de me atualizar lendo este jornal e os destaques dos sites de notícias, tive coragem de dar uma olhada na minha coluna (Erro grosseiro...Português grosseiro). Lá pelas tantas me deparei com esta afirmação: “Há uma regra que pode nos ajudar: esse “en” antes de “ch” é um prefixo: chiqueiro/enchiqueirar e charco/encharcar. O mesmo não se dá, por exemplo, com enxoval e enxada”.

Ok. A afirmação não está tecnicamente errada e a regra, de fato, se aplica a boa parte das palavras do tipo “enchiqueirar”, na qual “en” é prefixo (en+chiqueiro+ar). E não se aplica a palavras como “enxoval”.

Só que tem um problema: nas palavras “enxadrezado” e “enxaguar” o “en” também é prefixo. Os dois vocábulos são derivados de “xa­­drez” e “água”, respectivamente.

Assim, cabe perguntar: será que essa regra pode nos ajudar mesmo?

Talvez sim. Sobretudo pessoas que gostam de pesquisar etimologia de palavras, que têm um excelente domínio do nosso léxico. Mas, nesse caso, convenhamos que a regrinha vai se tornar desnecessária uma hora ou outra. Como regra, o melhor caminho é investirmos na leitura, o meio mais poderoso e produtivo de fixarmos a grafia das palavras. Sem desprezarmos, é claro, regras eficientes, que aprendemos nas primeiras sentadas que damos nos bancos escolares. Por exemplo, aquela sobre o uso de “m” e não “n” antes de “b” e “p” (ambulância e competição). Mas notem: por que não “competissão”? Temos “discutir/discussão” e “competir/competição”.

Nada de desespero!

Quando ficamos na dúvida, é só consultar um bom dicionário. Não é feio, nem desonroso. É sinal de cuidado, de curiosidade, de profissionalismo. Além de ser um divertido passatempo. Fica a dica de dois disponíveis na internet: o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) e o excelente iDicionário Aulete.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Os robôs não nos invejam mais

Livro mostra que, diante das classificações psiquiátricas, seríamos todos “doentes mentais” e alerta para a medicalização da vida cada vez mais cedo – transformando o ser humano da pós-modernidade numa espécie de “homo automaticus"

Por: Elaine Brum - Colunista da Revista Época

Os primeiros robôs da ficção tinham um conflito: eles eram criados e programados para dar respostas automáticas e objetivas, mas queriam algo vital e complexo. Em algum momento, às vezes por uma falha no sistema, eles passavam a desejar. E desejar algo que lhes era negado: subjetividade. Condenados às respostas previsíveis, revoltavam-se contra a sua natureza de autômato. Humanizar-se, sua aspiração maior, significava sentir angústia, tristeza, amor, raiva, alegria, dúvida e confusão. Os robôs da modernidade queriam, portanto, a vida – com suas misérias e contradições. Ao entrar em conflito e ao desejar, os robôs já não eram mais robôs, mas um algo em busca de ser. Um ser humano, portanto. A partir desta premissa, grandes clássicos da ficção científica da modernidade foram construídos, como O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov, que depois virou o filme estrelado por Robin Williams.

Hoje, a pós-modernidade nos encontra em uma situação curiosa: os humanos querem se tornar robôs. Cada vez um número maior de pessoas se oferece em sacrifício, imolando sua vida humana, ao deixar-se encaixar em alguma patologia vaga do manual das doenças mentais e medicalizar o seu cotidiano para se enquadrar em uma pretensa normalidade. E assim dar as respostas “certas”.

Para quê? Ou para quem?

Basta olhar ao redor com alguma atenção para perceber que, nas mais variadas esferas do nosso cotidiano, esperam-se respostas automáticas e objetivas. Seja na área amorosa e no “desempenho” sexual, seja no comportamento profissional. Até mesmo dos bebês espera-se que atendam às classificações previstas nos muitos compêndios sobre o que esperar de um filhote humano a cada fase. Vivemos no mundo dos manuais de todos os tipos, difundidos pelo mercado editorial e reproduzidos e amplificados pela mídia, que nos ensinariam um “modo de nos usar”, com o objetivo de alcançar um tipo específico e previamente anunciado de resultado.

Dar respostas automáticas e objetivas diante de situações determinadas nos daria um lugar no mundo dos “normais”. E dos bem-sucedidos, já que hoje a normalidade é determinada por um tipo particular de sucesso. Tornar-se robô na vã tentativa de apagar a subjetividade humana é, portanto, o que uma parte da humanidade ocidental tem desejado para si – e se esforçado para impor aos filhos. E nisso tem a ajuda decisiva da indústria farmacêutica, que possivelmente nunca tenha ganhado tanto dinheiro com psicofármacos como hoje, e de um certo tipo de profissional da medicina que manipula o “Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - DSM-IV)” como uma Bíblia.

A tese acima é o ponto de partida de um livro muito interessante lançado há pouco, chamado “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” (Via Lettera). A obra é organizada por Alfredo Jerusalinsy e Silvia Fendrik, dois dos mais brilhantes psicanalistas da atualidade. Mas, entre os nove autores brasileiros, nove argentinos, um mexicano e um francês, não há apenas psicanalistas, mas também psiquiatras, neurologistas e pesquisadores da área da neurociência. Em alguns capítulos a linguagem é árida, e a obra se beneficiaria de uma edição mais rigorosa e cuidada. Ainda assim, o tema é irresistível e a leitura abre muitas janelas de reflexão. Em certa medida, o livro responde às provocações de outra obra, “O Livro Negro da Psicanálise” (Civilização Brasileira), em que a psicanálise é violentamente atacada como “charlatanismo”. Mas, como os autores anunciam – e cumprem – “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” não é um mero contra-ataque, o que serviria apenas para empobrecer um dos debates mais relevantes da nossa época. E sim uma excelente oportunidade para discutir com inteligência e profundidade algo que diz respeito a todos nós.

Afinal, não é o caso de demonizar a indústria farmacêutica e a psiquiatria, como se tivessem o poder superior de nos fazer acreditar que os sentimentos e as contradições inerentes à condição humana constituíssem um estorvo dos quais fosse preciso se livrar com a maior rapidez possível. Tampouco radicalizar afirmando que os medicamentos não têm função alguma nem possam representar uma conquista em determinadas situações. É importante assinalar: existem casos em que os remédios são benéficos e podem ajudar a pessoa a sair de um estado de paralisia. E há bons profissionais que são parcimoniosos e responsáveis no seu uso, em geral por tempo determinado e com rigoroso acompanhamento, para que os efeitos colaterais das drogas não se tornem mais nocivos do que o problema que motivou o seu uso. Infelizmente, a realidade nos mostra que esta não tem sido a regra.

Vivemos hoje uma patologização da vida humana e um uso indiscriminado, abusivo e cada vez mais precoce de psicofármacos. A importância deste livro é nos ajudar a compreender o que isso diz sobre a forma como estamos vivendo as nossas vidas, sobre a qualidade do nosso desejo e sobre a lógica socioeconômica que tem movido nosso mundo. Para isso, de nada valeria trocar um dogma por outro. E o livro tem o mérito de não fazê-lo.

Se muitas vezes a ciência é colocada no lugar de divindade e damos aos médicos o poder de determinar como vamos viver – e como vamos morrer –, é porque nós permitimos que isso aconteça. Porque é mais fácil transferir a um outro a responsabilidade por escolhas que deveriam ser nossas. Ainda que seja difícil escapar das engrenagens do mundo, especialmente quando elas enriquecem as grandes corporações, em alguma medida é justo pensar que temos, se não liberdade, pelo menos uma paleta de alternativas. Com todos os riscos que implica escolher contra a lógica dominante.

Por exemplo. Quando os pais levam uma criança que não está dando as respostas “adequadas”, seja em casa ou na escola, a um psiquiatra ou a um pediatra ou a um neurologista ou a qualquer outra especialidade e saem de lá com um diagnóstico e uma receita de psicofármaco, não me parece que estão sendo enganados. Acredito que a ética do médico pode ser questionada. Mas acredito também que os pais, assim como cada um de nós, procuram – e encontram – o profissional que vai dizer aquilo que gostariam de ouvir.


Hoje parece mais fácil para os pais lidar com um diagnóstico de transtorno psiquiátrico e tentar calar seus filhos com medicamentos do que empreender uma travessia que seguramente será mais espinhosa, exigirá tempo e dedicação maiores e poderá levar a respostas impossíveis de prever – quando não a novas perguntas. Da forma como hoje é colocado, o “transtorno” mental aparece como algo que está convenientemente fora, não tem nada a ver nem com o paciente, nem com o funcionamento da família. Sem contar que parte dos pais adora delegar a difícil tarefa de serem pais – e parte dos médicos adora assumir a prazerosa tarefa de ser Deus.

No capítulo intitulado “Gotinhas e comprimidos para crianças sem história. Uma psicopatologia pós-moderna para a infância”, Alfredo Jerusalinsky afirma: “Nos últimos trinta anos, tem havido um deslocamento das categorias nosográficas (de descrição das doenças) para o terreno dos dados. Não se questiona o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar. (...) Na trajetória que estamos descrevendo, foi se apagando esse esforço por ver e escutar um sujeito, com todas as dificuldades que ele tivesse, no que tivesse para dizer, e foi-se substituindo o dado ordenado segundo uma nosografia (descrição das doenças) que apaga o sujeito. (...) É assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta. Os nomes das categorias não são inocentes”.

E, mais adiante: “De nossa parte, continuamos sustentando uma psicopatologia interpretativa, o que quer dizer não nosográfica, porque não depende de dados, não depende de sintomas, mas de deciframento. (...) Colocam na cabeça dos pais que eles não têm nada para ver nem entender e, então, eles se comportam como se não tivessem nada para ver nem entender; consequentemente a criança fica condenada aos automatismos mentais. Mas, claro, para eles só existem os automatismos mentais, então o que é preciso é trocá-los por outros”.

Quando as crianças apresentam um comportamento não esperado (esperado por quem e para quê?), a resposta predominante de pais, médicos e professores têm sido não escutar, mas transformar expressões em transtornos porque o que a criança diz, por palavras, gestos ou ações, pode transtornar os pais. E por isso precisa ser calado o mais cedo e o mais rápido possível. Em nome desta lógica, esquece-se de que somos seres dotados de inteligência e são poucos os que se questionam: se nunca houve tantos diagnósticos psíquicos (e, portanto, tantas patologias), se nunca existiram tantos medicamentos disponíveis para tratar essas doenças ou distúrbios, por que o número de casos não para de crescer e estaríamos vivendo verdadeiras epidemias de doenças mentais, transtornos de comportamento ou como queiram chamar essas síndromes que têm se multiplicado como coelhos? Não seria legítimo questionar: então, os remédios não curam?

Se aceitarmos como verdade única que o problema se resume a uma disfunção química no nosso cérebro, alheia ao viver, algo da ordem dos mecanismos fisiológicos, como o desarranjo de um sistema robótico, não bastaria “corrigir” com drogas para ser “curado”? Pelas estatísticas, tão valorizadas e difundidas pela própria indústria, sabemos que não é isso o que está acontecendo. O número de “depressivos”, “bipolares” e doentes do “pânico”, no mundo dos adultos, assim como o número de crianças com “transtorno de hiperatividade e déficit de atenção” e até mesmo com “autismo” não para de crescer. Se os remédios são tão eficazes e os diagnósticos tão fáceis de fazer como aqueles testes que a imprensa costuma publicar, do tipo “descubra se você é depressivo”, os doentes não deveriam diminuir em vez de aumentar? Afinal, sempre que a ciência descobriu a cura ou uma vacina para as doenças, iniciava-se um processo de redução no número de casos até a total erradicação.

Sobre este aspecto, os organizadores levantam uma questão interessante na apresentação da obra: “A ligeireza (e imprecisão) com que as pessoas são transformadas em anormais é diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser surpreendente que o que foi apresentado como avanço na capacidade de curar tenha levado a ampliar em uma progressão geométrica a quantidade de ‘doentes mentais’”.

Para complementar essa ideia, vale a pena ler a ótima entrevista feita pela jornalista Cláudia Collucci na Folha de S. Paulo de 18 de outubro. Sob o sugestivo título “Estamos dando veneno para as crianças”, Marcia Angell, professora titular do departamento de Medicina Social da Escola Médica de Harvard, critica a indústria farmacêutica por estimular o uso de medicamentos psiquiátricos em pacientes infantis. E também em adultos. Angell diz: “As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: ‘Você precisa perder peso, fazer mais exercícios’. E a pessoa diz: ‘Eu prefiro o remédio’. E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso. Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base”.

O que vale a pena perceber é que ninguém é normal, mesmo. Basicamente porque não há como saber o que seja isso. O que não é razão para sermos todos tratados como portadores de algum transtorno mental desde bebê. Como afirmam Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik: “A generalização e multiplicação dos signos psicopatológicos preparam o território para a expansão industrial na fabricação de psicofármacos, que passam a ser consumidos em massa. Nasce assim uma hipocondria dos estados de humor, dos afetos, das dúvidas, dos desejos, das tristezas. As variações mentais e as singularidades pessoais são comparadas com uma média estatística que cria uma medida comum inexistente na realidade. Esse ‘boneco padrão’ subjacente descreve uma ‘normalidade’ definida pela uniformidade. Comparados com ele, viramos todos ‘doentes mentais’”.

A tentativa de classificar toda singularidade como anormalidade pode se tornar uma grande comédia. Em 1992, o psicólogo clínico britânico Richard Bentall propôs em um artigo para o “Journal of Medical Ethics” o seguinte: classificar a felicidade como distúrbio psiquiátrico e incluí-la no manual dos transtornos mentais (DSM-IV). Richard escreveu com grande rigor acadêmico e citou 32 artigos de importantes revistas científicas britânicas. Passo a passo, ele prova que a felicidade é um estado estatisticamente anormal, acompanhado por sintomas como disfunção cognitiva e marcado por uma percepção distorcida da realidade.

Os pacientes afetados por esse distúrbio apresentam um quadro de euforia, sem contrapartida real, podendo resultar em desvantagem adaptativa. Sem contar que há uma relação significativa da felicidade com obesidade e ingestão de álcool. Richard propõe que os psiquiatras busquem tratamento para a felicidade e sugere até um nome para classificá-la como doença mental: “major affective, pleasant type”. A história é deliciosa porque Richard percebeu que, para evidenciar o absurdo que estava – e continua – sendo praticado, só mesmo assumindo o discurso psiquiátrico, mas pelo avesso. Se a tristeza é tratada como uma anomalia que pode e precisa ser curada, por que não a felicidade?

Ao olhar hoje para nós, com seus olhos artificiais, com o que um robô se depararia? Acho que uma das respostas pode ser encontrada em “Wall-e”, a bela animação da Pixar. Aliás, fica uma dica das mais agradáveis: pegue na locadora estes dois filmes sobre robôs, mas de épocas diferentes, “O Homem Bicentenário”, inspirado no texto de Isaac Asimov publicado na década de 70, e “Wall-e”, que recebeu o Oscar de melhor animação em 2009. “Wall-e” é um filme brilhante, “O Homem Bicentenário” deixa a desejar, mas juntos podem ser um ponto de partida interessante para pensar – sozinho, com os amigos ou com a família – sobre as mudanças ocorridas nas últimas décadas na forma de enxergar a nós mesmos.

“O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea” afirma que o ideal pós-moderno é o pensamento simplificado: memória reduzida + seleção de respostas corretas. Dizem Alfredo e Silvia: “Enquanto a cibernética eletrônica procura engenhosamente capacitar seus robôs para responder a questões cada vez mais aleatórias, e até para formular perguntas, nós humanos somos levados a uma ‘padronização’ do controle da ‘mente’. Amparados em padrões diagnósticos cada vez mais amplos – depressão, TOC, Asperger etc –, incluem-se os mais heterogêneos conjuntos de sintomas justificando deste modo a utilização dos mesmos psicofármacos. (...) Em um mundo em que o sujeito se desvanece ao redor da promessa de ter respostas para tudo, curiosamente surgem e proliferam as ‘patologias’ (...). O modelo atualmente proposto substitui o saber pela informação, a falta pela completude, a busca pela resposta ‘já’, a singularidade da diferença pela repetição do idêntico, o enigma do passado e do futuro pela pretensa certeza garantida do presente. O ideal seria que adaptássemos nossa experiência àquilo que, com toda a propriedade, poderia se chamar: Homo Automaticus?”.

Um dos traços marcantes da modernidade é a descoberta de que nossa consciência é apenas uma pequena parte do que somos. Há um vasto mundo inconsciente ou pré-consciente que nos constitui. Assim, não deixa de ser curioso, ainda que bastante lógico, que a partir da descoberta transformadora de que a consciência nem nos governa nem é nosso “eu” total, de repente desejamos nos robotizar para escapar da aventura ao mesmo tempo extraordinária e assustadora que é criar uma vida. Será que o melhor acordo que podemos fazer com nós mesmos é engolir pilulinhas na tentativa de manter um ilusório controle sobre nossa mente e sobre o outro, quando se trata de nossos filhos? Pílula para comer ou para não comer, pílula para dormir ou para ficar acordado, pílula para ter desejo sexual ou para diminuir o desejo sexual, pílula para se acalmar ou para estimular... Como se a condição humana, com todas as suas ambiguidades, pudesse ser reduzida ao mero ajuste de um corpo-máquina.

O crescimento dos distúrbios mentais na mesma proporção das supostas pílulas da felicidade e de outros “ajustadores” da mente mostra que há algo que não fecha nessa conta. Enquanto puder, a indústria farmacêutica vai continuar ganhando com a transformação de qualquer sofrimento em patologia e com a consequente medicalização da vida. E, quando (e se) algo mudar, vão ganhar com outra coisa. Mas nós, nós e nossos filhos, só temos uma vida para viver da forma mais ampla e rica possível. Convém não perdê-la na tentativa de anular a singularidade que nos pertence.

Como dizem Alfredo Jerusalinsky e Silvia Fendrik, os organizadores de “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea”: “Os robôs não precisam se preocupar, já que hoje em dia parecem ser eles os que encarnam o ideal: sem desejos, sem envelhecimento, sem falhas, com automatismos garantidos para cada situação específica, sem vacilação, tudo positivado em um pensamento ‘positivo’. No entanto, devemos sublinhar que, enquanto aqueles robôs dos anos 1930 representavam em sua rebelião os ideais de um modernismo romântico, os atuais ‘transtornos’, sob suas formas toxicomaníacas, bulímicas, anoréxicas, de padrões sociais de sucesso ou de quimiopsiquiatria, representam a obediência recoberta por um falso manto de liberdade”.

Por mais que tudo nos empurre para a patologização e a medicalização da vida na busca de uma normalidade inexistente, acredito que há algo do humano que resiste, que não é calado e que grita, ainda que dopado. É por isso que a conta não fecha. Porque, por mais que se divulgue a crença – e é neste momento que a ciência se coloca no lugar da religião – de que é possível controlar o sofrimento e garantir a felicidade, a humanidade que mora em nós desmascara essa ilusão dia após dia. E por isso é preciso encontrar uma nova panaceia para dar conta de cada novo “transtorno”.

Se a dor é inerente à vida, ela necessariamente não é algo ruim, mas algo que nos impele a buscar um jeito de viver que faça mais sentido para nós. Se a confusão pode ser infernal no cotidiano, com todas as dúvidas que ela traz, não há como achar algo ou a si mesmo sem ela, para em seguida nos perdermos de novo, porque é assim que alcançamos outros mundos também dentro de nós. A angústia não deve ser silenciada, mas ouvida, porque está nos dizendo algo que nos diz respeito. E, se você for pai ou mãe, é sua a responsabilidade de lidar com as questões trazidas por seus filhos, sejam em forma de palavras, de gestos ou de comportamento. É sua – e não dos médicos – desde que você escolheu ser pai ou mãe – e até que suas crianças progressivamente assumam a responsabilidade pelos rumos da própria vida. E, acredite, a melhor forma de lidar ainda começa por escutar. Escutar de verdade.

É na incompletude, que não se fecha com nenhuma pílula, que talvez possamos, individual e coletivamente, empreender uma busca sem nenhuma garantia, como são todas as buscas, que nos leve a criar uma vida que ainda possa fazer um robô aspirar a uma existência humana.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O câncer pode ser uma dádiva?

Primeiro depoimento de Gianecchini sugere uma reflexão sobre o papel da religiosidade no tratamento da doença.

Por: Cristiane Segatto - Colunista da Revista Época

Se você ainda não assistiu ao depoimento do ator Reynaldo Gianecchini sobre o câncer que ele enfrenta, vídeo divulgado em primeira mão por ÉPOCA, recomendo que faça isso agora. Antes mesmo de terminar de ler esse texto.

As palavras de Gianecchini são tocantes. O ator gravou esse vídeo no dia 6 de outubro para uma associação de pacientes, a Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia). O valor do vídeo é a sinceridade que ele transmite.

Sentado diante da câmera, sem nenhuma super produção, Gianecchini abre o coração. E, por isso mesmo, toca o coração de quem o escuta. São cinco minutos que fazem a gente ganhar o dia.

Em um dos trechos, ele diz: “Acredito que (o câncer) pode ser uma dádiva. Eu e minha família, ao longo do processo, fomos nos iluminando. Buscando uma força que a gente não sabia que tinha. Além disso, recebi do público um amor tão tocante.”

Não é a primeira nem a segunda vez que ouço um paciente de câncer dizer que a doença pode ser uma dádiva. É uma afirmação que sempre me causa estranhamento. Admiro os sentimentos e a fé de quem pensa assim. No entanto, cá com meus botões, penso que se a doença é um presente, prefiro ficar sem essa dádiva.

Não há nada de sobrenatural na gênese do câncer. Ele é decorrente do crescimento descontrolado de uma única célula. A divisão celular permite que nós possamos crescer, nos adaptar, recuperar os tecidos lesados, viver.

O mesmo processo, quando escapa ao controle, permite que as células de câncer cresçam, floresçam, se adaptem. Permite que o câncer viva ao custo de nossa vida. O oncologista Siddhartha Mukherjee resume isso muito bem no livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer (Companhia das Letras): “Se buscamos a imortalidade, a célula de câncer também busca”.

“A célula de câncer é a mais perfeita versão de nós mesmos”, diz o americano Harold Varmus. A descoberta de que o câncer é causado por mutações genéticas ocorridas nas células normais rendeu a ele e a J. Michael Bishop o Nobel de Medicina em 1989.

Para vencer o câncer, portanto, é preciso encontrar formas de prevenir essas mutações. Por que elas ocorrem? Em primeiro lugar, estatisticamente, por causa do cigarro. Ele causa as alterações genéticas responsáveis por 35% de todos os casos de câncer. Outros 15% são provocados pelo álcool. Depois vêm os vírus, a poluição e outros fatores. Apenas 5% são provocados por alterações genéticas hereditárias.

Como se vê, todos estamos sujeitos ao câncer. Acontece com os velhos, com os moços, com os bebês. Com os ricos e com os pobres. Com os altos e magros e com os baixinhos e gordinhos. Com os sedentários e também com os atletas (ainda que em menor proporção). Com os feios e com os bonitos.

É um processo puramente biológico. Pode acontecer comigo e com você, como aconteceu com Giane. Ele menciona, no vídeo, que jamais imaginou que pudesse passar por isso porque é uma pessoa alegre, que não guarda mágoas.


Pois é, Giane, o aparecimento do câncer também não é determinado pelo psiquismo. Não da forma como se acreditava no passado. É doença que afeta os magoados, os pérfidos, os maus, os bons, os otimistas, os cativantes.


Estamos todos no mesmo barco. Quem ainda não teve um caso de câncer na família provavelmente terá um dia. Por isso é útil saber o que pode ajudar a amenizar o sofrimento do paciente e das pessoas queridas que, de certa maneira, adoecem junto com ele.


A regra número 1 é que não existe regra. A religiosidade de Gianecchini parece representar um porto seguro para ele. Mas a fé só faz sentido para quem tem. Não pode ser imposta. O doente que acredita em Deus ou em qualquer outra força superior merece tanto respeito quanto os pacientes que não acreditam.


Não é raro ver um doente receber uma visita no hospital e ser obrigado a ouvir do visitante que uma outra pessoa foi curada de câncer porque Deus a achou merecedora. É triste, para quem ouve, testemunhar a essa divisão drástica do mundo: de um lado, os merecedores. Do outro, os que não merecem. Desse lado, os que têm valor. Do outro, os que não valem nada.


Isso não pode ajudar ninguém. O que ajuda é o respeito. Por tudo aquilo que a pessoa é e por tudo o que ela pensa e sente.


A religiosidade de Giane faz todo sentido para ele. A beleza da mensagem do ator é a positividade da essência. Uma beleza que transcende o fato de que ele tem fé religiosa. É o tipo de beleza que serve para quem acredita no sobrenatural e para quem não acredita.


“Recebi gente de todas as religiões: do rabino ao evangélico, ao espírita”, diz ele. “Deixei que todos rezassem por mim”, afirma.


E completa: “Cheguei à conclusão de que religião é isso. É essa força que resvala no amor. De compartilhar, buscar a caridade. Isso é a busca da cura. Acho que cada um tem seu caminho”.


Por tudo isso, muitos médicos já se convenceram (graças a pesquisas científicas sérias) de que é fundamental conhecer a história espiritual do paciente que vão tratar. Existem questionários bem estruturados para que o trabalho seja feito adequadamente. O médico Franklin Santana Santos trata desse tema, entre outros de extrema relevância, no livro Cuidados Paliativos: Discutindo a Vida, a Morte e o Morrer (Editora Atheneu).


O médico responsável pelo paciente que enfrenta uma doença grave deve perguntar sobre as crenças que ele tem. O objetivo é entendê-las e perceber de que forma elas podem ajudar o doente na recuperação. O médico não pode, no entanto, fazer julgamentos ou tentar modificar a existência ou a falta delas.


Essa informação deve ser documentada no prontuário do paciente para que outros profissionais tenham acesso a ela. Se necessidades espirituais forem identificadas, o líder religioso precisa ser avisado. Se nenhuma necessidade espiritual for identificada, o paciente precisa de algo muito simples: respeito.


Com seu depoimento do fundo do coração, Giane deu uma bela lição. Aos que têm fé e aos que não têm.